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Guia de Escrita de Artigos Científicos em Computação

Escrever um artigo científico é uma tarefa árdua, quase impossível.... Para alunos de Ciência da Computação (e de qualquer área exata) é mais difícil ainda, muito melhor programar, não é mesmo?

No entanto, cada vez mais a avaliação de mérito de um profissional da academia e ciência leva em consideração a quantidade e qualidade de suas publicações. Por isso, essa atividade não deve ser menosprezada. Por isso, minha constante e insistente "recomendação" aos alunos para escrever artigos.

Para isso apresentamos um pequeno guia para escrever um artigo científico em computação que pode ajudar muito todos os alunos.

Por que publicar?

Você, aluno ingressante em um curso de mestrado ou doutorado, já deve ter ouvido a necessidade de publicar. A maioria vai aceitar somente com a justificativa de ser "a regra do curso", mas tem muito mais.

Publicação é a forma mais eficiente (senão a única) de se divulgar um trabalho de pesquisa que vai trazer reconhecimento do curso, dos seus alunos e dos professores. A CAPES realiza regularmente a avaliação do curso e atribui uma nota, caso ela seja insatisfatória o curso pode ser fechado. O Documento de Área da CAPES define os critérios para calculo dessa nota, e se você observar no documento da computação, 50% da nota está diretamente vinculada a quantidade e qualidade das publicações.Portanto, as publicações influenciam diretamente na avaliação e continuidade dos cursos de pós-graduação no Brasil.

Para fazer pesquisa é necessário dinheiro! Dinheiro para bolsas de alunos e professores, para pagar viagens visando participar de conferencias, para comprar papel e tonner de impressora, para comprar equipamentos de laboratório e salas de aula, material de limpeza, etc. No Brasil, a maior fonte de financiamento da pesquisa nas universidades é através da CAPES e CNPq. Esse dinheiro não é distribuído em cotas iguais para cada universidade. Na verdade, cada programa de Pós-Graduação recebe uma cota de acordo com a sua nota na avaliação da CAPES (vide item anterior). A avaliação da CAPES não apenas pode determinar o fechamento do curso, mas também defina a verba a ser repassada ao programa. Entramos em loop: melhor publicação -> melhor nota -> mais dinheiro -> melhores projetos -> melhores publicações....

Por fim, é preciso divulgar sua proposta à comunidade acadêmica, para ser discutida e avaliada por outros pesquisadores afim de ter seu trabalho reconhecido. Para os alunos, uma publicação em um congresso ou periódico relevante, é certeza de ter sua dissertação/tese aprovada. Qual é a banca que vai reprovar um trabalho publicado em um periódico/conferencia julgado por vários pesquisadores de renome? Para quem pretende fazer um doutorado, uma boa publicação no mestrado é passaporte para ingressar em um doutorado de boa qualidade.

Por que escrever em inglês?

Meus alunos já estão acostumados com a minha preferencia que eles escrevam os artigos em inglês (pode escrever em qualquer outra língua, desde que tenha uma versão em inglês). Mas tem alguns motivos.

Primeiramente, a língua da computação é o inglês. Qualquer pessoa que trabalhe em computação no mundo certamente vai conseguir ler seu trabalho. Em um mundo com 7,2 bilhões de habitantes, apenas 250 milhões entendem português.

Se você ler a lista de periódicos e conferências na área de computação (incluindo o Qualis da CAPES) a grande maioria utiliza a língua inglesa como padrão. Como existem muito mais veículos, geralmente é mais fácil ter aceito um artigo escrito em inglês do que um artigo escrito em português, mesmo considerando que o escritor não tem a língua nativa inglesa. 

Aproveite a objetividade e a gramática simples da língua inglesa!!!

Sobre o que escrever?

Para escrever um artigo científico sobre Ciência da Computação de qualidade é preciso ter primeiro um bom conhecimento sobre o tema. Costumo dizer que apenas após ler uns 50 artigos, o aluno vai ter condições de propor um tema de pesquisa.
 
Ao estudar determinado tema, o aluno vai encontrar um problema interessante. Preste atenção aos artigos que tem uma seção chamada "Open Issues and Future Directions" onde indica vários problemas não resolvidos no artigo apresentado que poderão ser temas para um futuro candidato.

Após fazer a revisão bibliográfica e não encontrou uma solução para este problema, você encontrou um assunto potencial. Calma, ainda não temos o tema, mas chegaremos lá... O primeiro ponto é você gostar desse problema e se interessar em resolve-lo.  Não faça sua pesquisa burocraticamente, é sinal de fracasso! 

Além disso, o problema precisa ser tema de interesse da comunidade acadêmica. Como é a comunidade que vai avaliar o seu trabalho, se você propor uma solução para um problema de interesse, os revisores terão bons olhos para aprovar o seu trabalho. Mas fuja das modas, elas duram pouco tempo, não mais que 1 ano. Uma revisão bibliográfica nos últimos 3 anos vai indicar um bom tema. Nesse ponto o seu orientador vai poder ajudar....

Com o tema definido, você vai propor uma solução. Você vai precisar resgatar tudo que estudou na sua graduação e pós-graduação e buscar um mecanismo, um algoritmo, uma técnica, etc. Não tenha vergonha de recuperar algoritmos antigos e aplicados em outras áreas, se o problema é parecido, você pode aproveitar o conhecimento. A maioria dos artigos (e dissertações e teses) são aplicações de algoritmos antigos com ajustes para o problema novo.   

Assim, você escolheu o problema, encontrou uma solução, fundamentou a sua proposta, e agora precisa provar. Na ciência da computação a validação vai envolver uma construção de um protótipo para provar a funcionalidade da proposta. Essa avaliação pode ser através de simuladores ou implementações reais. Mas isso é tema para outro guia....

A minha proposta é adequada para ser publicada? Tem conteúdo suficiente para ser aceito? Tem algum ponto que precisa ser revisado? Para responder essas questões, pergunte ao seu orientador!!!! Esse é o trabalho dele....

Aonde publicar?

Assim como temos lixo científico (trabalhos com qualidade ruim e questionável) também temos veículos de divulgação questionáveis (geralmente onde se publicam os trabalhos igualmente questionáveis...).

Mas como avaliar qualidade de congressos e revistas? Isso é bastante subjetivo. A CAPES divulga uma lista de qualidade de publicações chamada de Qualis, para a área de Ciência da Computação existe uma lista para revistas e outra para conferencias. Para a calculo do Qualis são usados o fator de impacto do ISI/JCR (Journal Citation Records) e o do CiteSeer. Ele é classificado em três categorias: A1 e A2 para os veículos mais relevantes, B1, B2, B3, B4 e B5 para os veículos intermediários e C para baixa qualidade. De uma forma geral, é mais importante publicar no extrato superior, ou seja, A1, A2 e B1.

Outra informação importante é verificar o Fator de Impacto. O Fator de Impacto tem reconhecimento mundial enquanto o Qualis tem validade apenas no Brasil. Apesar do Qualis levar em consideração o Fator de Impacto na sua avaliação existem algumas discrepâncias e combinas os dois pode ser muito útil.

Os veículos de divulgação tem assuntos específicos. Então você precisa escolher um periódico/conferencia onde os editores e revisores terão interesse em publicar o seu artigo. Uma boa dica é procurar os veículos onde foram publicados os trabalhos relacionados do seu artigo. Já que você teve interesse em lê-los, os demais leitores também terão interesse em ler o seu. Para escolher a revista mais adequada para a submissão do seu artigo, verifique a melhor pontuação entre as revistas as quais publicam artigos com o mesmo enfoque da sua pesquisa. Certifique-se que o problema e o tipo de pesquisa do seu trabalho estão dentro do escopo da revista.

Escolher a revista mais adequada para a publicação antes de começar a escrevê-lo irá lhe poupar muito tempo em ajustes às normas e estilo da revista. Além da economia de tempo, escrever o artigo de acordo com as características e orientações do periódico desejado pode aumentar consideravelmente as chances de ser aceito. Analise o intervalo de tempo decorrido entre a submissão e a publicação dos últimos artigos publicados na revisa, um tempo longo pode indicar um acumulo de artigos e o seu artigo vai para o final da fila. 

Para verificar se a revista para a qual o artigo será submetido é apropriada verifique se  algum dos trabalhos relacionados do seu artigo foi publicado nesta revista. Se não houver nenhum artigo relacionado publicado lá, provavelmente você está tentando submeter para o lugar errado....

Após escolher o periódico científico, leia alguns artigos publicados, observe a forma de apresentação dos gráficos e tabelas, verifique o formato das citações e das referências bibliográficas, as normas editoriais e os critérios de avaliação dos artigos.

Como estruturar o artigo?

Apesar de haver diferenças na estrutura de um artigo para diversas revistas, todos seguem uma mesma sequencia. Por exemplo, alguns periódicos pedem para colocar a seção de trabalhos relacionados antes da conclusão, outros preferem depois da introdução. No entanto, essas regras estão claras nas "recomendações aos autores" apresentada pela revista.

No entanto, a ordem da redação do artigo não precisa seguir a mesma ordem, todos nós usamos editores de texto....  Alguns autores sugerem que você comece a escrever um artigo pelos objetivos e conclusões do trabalho, a partir da análise crítica dos resultados encontrados. Desta forma, podemos ter uma visão clara da pergunta que gostaríamos de responder a partir dos objetivos da pesquisa e quais respostas foram encontradas (conclusão). Com as conclusões em mente, será mais fácil identificar os argumentos e discutir os resultados que foram obtidos.  Já outros autores sugerem que seja melhor começar a escrever um artigo pelo seu resumo, assim você teria uma noção clara do que pretende escrever. 

Mas a forma mais produtiva de escrever um artigo é começar pelas partes com as quais você se sente mais confortável, complementando outras partes à medida em que pensa nelas. Mas para não perder a sequência lógica entre os assuntos de uma seção do artigo, antes de iniciar faça um roteiro, elencando as informações e discussões que cada seção deverá conter e a ondem em que elas aparecerão no texto.

Mas independente do veículo escolhido e a forma de trabalho de cada um, listamos o que é importante para cada seção.

1. Título

O Título deve dizer exatamente o conteúdo do trabalhoDeve ser curto e não usar palavreado hermético ou muito específico para que mais pessoas entendam do que trata seu trabalho.  A maioria dos artigos não é lida porque os leitores não gostam ou não se interessam pelo título. O título deve ser escrito com uma frase, onde se mostra o objetivo do trabalho indicando o problema e a solução apresentada, por exemplo "resolvendo o problema X utilizando a técnica Y". Pode também ser em forma de pergunta, indicando a questão primordial que originou o trabalho, por exemplo "Como resolver o problema X?" 

2. Autores

A seqüência dos autores na primeira página do artigo não tem uma regra fixa. O mais comum é que o autor que mais contribuiu na condução do estudo seja o primeiro autor e o responsável pela orientação do trabalho seja o último, com os demais autores distribuídos do segundo lugar em diante por ordem decrescente de participação. Uma medida importante, normalmente, é colocar o autor principal na posição de autor para correspondência.

3. Resumo

O Resumo deve ser o mais breve possível. O leitor lê prioritariamente resumos curtos. A maioria das revistas restringem o resumo a um máximo de 200-250 palavras, porém devemos nos esforçar em manter abaixo das 100-150 palavras. 

Não é necessário colocar no Resumo os antecedentes da pesquisa, isto é, as informações que justificam o objetivo. Inicie diretamente a partir do problema que pretende tratar e o objetivo. Só coloque informações anteriores ao objetivo se forem necessárias para entendimento do objetivo. 

Após o objetivo, coloque o delineamento da proposta, isto é, a arquitetura proposta, os algoritmos usados, mas sem entrar em detalhes. Nessa parte tente aguçar a curiosidade do leitor para que ele leia o seu artigo. 

Em seguida, apresente a metodologia utilizada para testar a proposta, por exemplo, se foi implementado um protótipo, se foi usada alguma modelagem, etc. Depois apresente apenas os principais resultados obtidos, indicando claramente os efeitos, por exemplo se aumentou o desempenho, se reduziu as perdas, confirmando o objetivo anteriormente apresentado.  

No final, apresente as principais conclusões, apenas as mais gerais. Você pode apresentar apenas uma conclusão geral Uma frase), apenas o importante é que seja relevante.

Lembre–se que o Resumo é escrito geralmente em um único parágrafo e procure reduzir as frases ao menor tamanho possível para facilitar o entendimento. 

4. Palavras Chave

Coloque sempre o número máximo permitido pela revista, procurando reforçar a essência do trabalho, principalmente os pontos mais inovadores. Mas não escreva mini–frases no lugar das palavras–chave.

5. Introdução

A Introdução, como o próprio nome diz, serve para introduzir o leitor ao tema do artigo, a motivação ao tema, ao problema tratado, aos principais conceitos envolvidos e aos principais trabalhos já realizados até o momento. É a  seção em você esclarece a importância da pesquisa e a relevância para a área. Pode ser feito uma descrição sucinta de pesquisas anteriores para associar o trabalho presente. Também é importante ressaltar o ineditismo da pesquisa e descrever claramente o objetivo do trabalho proposto. 

Embora esteja localizada nas páginas iniciais de um artigo, a introdução é mais facilmente elaborada quando a discussão e as conclusões já tiverem sido redigidas. A introdução deverá ser um convite atrativo para a continuidade da leitura do artigo. 

A Introdução deve ser estruturada da seguinte forma:
  • Antecedentes e motivação do problema.
  • Descrição do problema.
  • Breve resumo de trabalhos realizados.
  • Apresentação resumida da proposta
  • Aplicabilidade e originalidade da proposta.
O que não deve ter na Introdução:
  • Muita teoria.
  • Introdução muito longa, incluindo trechos que poderiam ser colocados melhor no texto subsequente.
  • Detalhes excessivos na descrição de trabalhos prévios.
  • Omissão de referencias diretamente relevantes ao trabalho.
  • Terminologia confusa..

6. Trabalhos Relacionados

Nesta seção deve-se citar alguns trabalhos relacionados a sua proposta para efeito de comparação. Aqui não se deve colocar teorias e embasamento da proposta, que deverão estar na seção de fundamentação teórica. Em princípio os trabalhos relacionados dever ter o mesmo objetivo que o seu trabalho, porém que apresenta características diferentes (senão seria plágio). Os trabalhos citados deverão destacar o que já foi feito de importante e resultados obtidos sobre o problema e que poderiam ser utilizados para comparação.

Alguns assuntos podem ter poucos enquanto outros poderão ter muitos trabalhos relacionados. A regra é escolher 3 a 4 trabalhos mais relevantes. 

A seção de Trabalhos Relacionados deve ser estruturada da seguinte forma:
  • Colocar cada trabalho relacionado em um paragrafo.
  • Em cada trabalho relacionado dizer o objetivo e detalhes gerais, como metodologia ou técnica utilizada, enfatizando as diferenças com o seu trabalho
  • Citar sempre a referência completa, preferencialmente as publicadas em periódicos. Geralmente são as versões mais completas pois em congressos as propostas são apresentadas mais resumidas ou incompletas devido a limitação de espaço.
  • Indicar os trabalhos que serão utilizados para comparação com o seu trabalho, se for o caso.
  • Destacar os pontos positivos e negativos de cada trabalho.
  • Tente citar apenas os pontos negativos que serão resolvidos na sua proposta. 
O que não deve ter no Trabalhos Relacionados:
  • Muitos detalhes da proposta.
  • Colocar nesta seção trabalhos fundamentais. por exemplo, o algoritmo que será usado em sua proposta.
  • Apenas criticar as proposta e não ressaltar os pontos positivos.
  • Não apontar as idéias que foram adotadas na sua proposta.

7. Fundamentação Teórica

Nesta seção deve ser colocado todos os fundamentos teóricos utilizados na sua proposta e necessários para o entendimento.  É importante fazer citações dos conceitos e definições principais, preferencialmente de fontes primárias. Mas não deve ser muito detalhado pois todos os revisores do artigos são professores e não vão gostar de testos longos e muito básicos. O ideaç é fazer uma breve apresentação dos algoritmos ou técnicas que são base para a proposta.

A seção de Fundamentação Teórica deve ser estruturada da seguinte forma:
  • Fazer uma breve introdução dos assuntos que vão ser apresentados e a importancia deles para a sua proposta.
  • Colocar cada assunto em uma subseção
  • Fazer abordagem simples e direta do tema e seguir uma sequência lógica e ordenada de idéias.
O que não deve ter na Fundamentação Teórica:
  • Muitos detalhes sobre cada assunto.
  • Ser muito didático.
  • Não encadear com a proposta.
  • Escrever comentários irrelevantes e redundantes

8. Apresentação da Proposta

Esta é a seção principal do artigo, onde a proposta será apresentada. Deve ser encadeada e apresentar uma explicação top-down, isto é,  começar do mais geral e ir detalhando cada parte. Se a proposta for uma arquitetura, a primeira seção deve apresentar a arquitetura do sistema  e cada subseção subsequente deve detalhar cada módulo apresentado na arquitetura geral.

Deve-se usar figuras e diagramas para explicar a proposta. Geralmente, figuras requerem uma explicação mais detalhada no texto. Além disso, a legenda das figuras devem ser autoexplicativas, isto é, o leitor poderá entender a proposta apenas vendo a figura e e lendo a legenda, que não precisam ser repetidos no texto.

Argumente e justifique todas as opções de projeto escolhidas para a sua proposta. Convença que a abordagem escolhida é boa. Qualquer escolha deve ser justificada por uma referência ou por avaliação realizada. Por exemplo, "escolhemos o algoritmo X devido ao fato dos bons resultados obtidos por fulano [referencia]" ou  "escolhemos o algoritmo X devido aos bons resultados obtidos em nosso experimento conforme é mostrado na seção X". 
 
Cite e enfatize a contribuição do artigo. Não deixe para o avaliador esse trabalho. Se ele não encontrar essa informação facilmente no texto, ele certamente desistirá e rejeitará o artigo por não identificar o que o artigo contribui para a ciência;

A seção de Apresentação da Proposta deve ser estruturada da seguinte forma:
  • Fazer logo no início uma apresentação geral da proposta, argumentando as opções de projeto.
  • Descrever cada módulo ou parte da proposta em uma subseção
  • Fazer uma abordagem top-down, começando do geral para o específico.
O que não deve ter na Apresentação da Proposta:
  • Repetir informações apresentadas nas seções anteriores, por exemplo, Fundamentação Teórica.
  • Não encadear as subseções.
  • Não colocar opções de projeto sem uma justificativa. Não escrever "escolhemos o algoritmo X por considerarmos ser melhor".
  • Não diminua o trabalho de outro pesquisador de forma agressiva ou ofensiva. Quando o trabalho foi realizado ele foi considerado revolucionário. Se houver limitações, fale sobre elas sem desmerecer o
    trabalho.
  • Não desafie conhecimento pré-estabelecido sem provas. Você pode até fazê-lo mas vai precisar de provas irrefutáveis. 

9. Validação da Proposta

Na ciência uma proposta não avaliada não tem valor. Em muitas áreas, incluindo a computação, a avaliação é através da construção de um protótipo que vai ser avaliado em um cenário controlado para obter resultados que possam ser extrapolados. Também deve ser mencionado a metodologia de testes, as variáveis medidas e as análises estatísticas realizadas.  As informações dessa seção são fundamentais para compreender os resultados foram obtidos, e possibilitar a replicabilidade da pesquisa.

A seção de Validação da Proposta deve ser estruturada da seguinte forma:
  • Detalhes de implementação do protótipo (linguagem, bibliotecas, etc)
  • Descrição do ambiente de testes (simulação,emulação, etc)
  • Descrição dos cenários de teste (são realistas?)
  • Descrever o controle das condições experimentais.
  • Variáveis que foram avaliadas
  • Qualquer observação sobre limitações do ensaio.
O que não deve ter na seção de Validação da Proposta:
  • Informação inadequada para avaliação ou replicação.
  • Descrições detalhadas de métodos já conhecido (por exemplo, fórmula de calculo da média)
  • Validação incompleta
  • Medidas não validadas; de baixa confiabilidade ou desconhecida.

10. Resultados

Na seção dos resultados, os gráficos e figuras geralmente facilitam a observação e compreensão dos efeitos quando comparados com tabelas. Entretanto, as tabelas são importantes quando valores numéricos específicos são relevantes. Alguns autores recomendam o uso de tabelas porque, geralmente, recebem um número maior de citações devido ao fato que outros pesquisadores podem usar os dados como base de comparação para as propostas deles. 

De atenção ao tratamento estatístico dos dados. Não use apenas um resultado, mas a média de, pelo menos, 30 medidas. Calcule desvio padrão e represente nos gráficos e tabelas. Pode ser interessante mostrar intervalo de confiança. Muitos artigos promissores são recusados para publicação devido ao tratamento estatístico inadequado.

Na seção de resultados é interessante apresentá-los em forma de tabela ou gráfico pois são concisos e permitem validar as conclusões. Se a quantidade de dados for pequena, tabelas são a forma ideal. Se a quantidade de dados for grande, um gráfico pode mostrar melhor. Procure escrever descrições claras e organizadas dos resultados, sem repetir  dados no texto já expostos em gráficos e tabelas. Evite colocar gráficos e tabelas de dados similares, por exemplo, bytes transmitidos e bits transmitidos. 

A seção de Resultados deve ser estruturada da seguinte forma:
  • Usar formato adequado de apresentação: tabela e/ou gráficos.
  • Apresentar estatísticas descritivas: médias, desvio padrão e correlações
  • Fazer uma análise estatística dos resultados
  • Comentar a significância e a amplitude dos dados.
O que não deve ter na seção de Resultados:
  • Tabelas e figuras complexas, incompreensíveis.
  • Repetição dos dados no texto, nas tabelas e nas figuras.
  • Não apresentar os resultados prometidos na seção de validação da proposta.
  • Análise estatística inadequada ou inapropriada.

11. Discussão

A discussão é a parte mais complexa e difícil de se escrever em um artigo. Deve ser redigida com a finalidade de apresentar e interpretar conclusões, enfatizar os resultados mais importantes e comparar os resultados obtidos com os resultados obtidos por outros pesquisadores mencionados na seção de Trabalhos Relacionados.

Em um artigo para congressos com pouco espaço, esta seção pode ser incorporada na seção de resultados.

A seção de Discussão deve ser estruturada da seguinte forma:
  • Relacionar os resultados obtidos.
  • Resultados esperados versus resultados obtidos.
  • Limitações do ensaio e aproximação com o mundo real.
  • Confiança estimada das conclusões.
  • Explicitação de possíveis restrições para as conclusões.
  • Identificação de procedimentos metodológicos pertinentes aos resultados.
  • Recomendações para pesquisas futuras.
O que não deve ter na seção de Discussão:
  • Repetição da introdução e dos resultados.
  • Discussão não baseada nos resultados.
  • Hipóteses não discutidas previamente.
  • Apresentação de novos dados.
  • Repetição da revisão da literatura.
  • Especulações não fundamentadas.
  • Recomendações não baseadas nos resultados.

12. Conclusões e Trabalhos Futuros

Ao escrever as conclusões apresente realmente apenas conclusões. Muitas vezes os autores apenas reafirmam os resultados, mas o leitor já leu os resultados e a discussão nas seções anteriores. Nas conclusões, o leitor quer entender claramente a solução para o problema que o trabalho pretende solucionar. A Conclusão deve responder aos problemas colocados na Introdução. Limite-se às conclusões fundamentadas nos resultados que você obteve e que respondem às questões do artigo, ou seja, relacionadas aos objetivos.

No entanto um trabalho científico não tem fim, por isso devemos indicar os Trabalhos Futuros.  Em um artigo geralmente os Trabalhos Futuros estão juntos com a Conclusão, mas você pode criar uma seção exclusiva. Nesta seção você pode colocar as conclusões secundárias, ou seja, tudo aquilo que foi identificado durante a realização da pesquisa mas não relacionado diretamente com o objetivo.  A ciência é acumulativa, e depois de passar um bom tempo pesquisando,  você pode indicar aos novos pesquisadores por onde evoluir o seu trabalho, eventualmente você mesmo em um doutorado ou algum membro da equipe.

13. Agradecimentos

Se o trabalho for resultado de algum projeto, ele deve ser mencionado aqui. Isso é importante para justificar o investimento feito. 

Agradecimento não arranca dedo....

14. Referencias

Corretas, completas, e específicas.

Informações obrigatórias: autores, título do artigo (livro), nome da conferência ou revista (editora), volume e número para artigos de revista, ano de realização (publicação).

Tente incluir referências do mesmo ano (ou ano anterior) para ilustrar que o tópico é atual e de interesse da comunidade. Tente incluir artigos de conferências e revistas importantes, não apenas sites da Internet. Evite referenciar livros, a não ser que seja imprescindível. Todas as obras listadas no conjunto de referências devem ser mencionadas no texto, e vice-versa.

Sugestões gerais

  • Siga o formato dos  congressos e revistas . Geralmente, eles possuem um formato específico para a submissão de artigos. Confira a seção de “Instruções a Autores” antes de submeter o artigo. Artigos podem ser recusados apenas por não seguir o formato, mesmo que o conteúdo seja relevante.
  • Faça um título curto, que chame a atenção e que reflita o tema principal do artigo. Muitos artigos não são lidos porque os revisores não se interessaram pelo título. 
  • Faça um resumo sucinto e objetivo. Ele deve dizer o problema, a motivação, a solução proposta e os resultados obtidos. Muitos artigos são recusados porque os revisores não entendem o resumo. 
  • Escreva uma Introdução completa e coerente com a proposta do trabalho. A Conclusão deve responder a todos os objetivos colocados na Introdução. Muitos artigos são recusados porque os revisores não gostam da Introdução e da Conclusão.
  • Tente escrever o artigo no impessoal, na terceira pessoa.  Evite usar a primeira pessoa. Gírias, ironias e brincadeiras.são inadmissíveis.
  • Certifique-se de que todas as figuras e tabelas estão legíveis (o menor tamanho de fonte deve ser da legenda da figura), e se todas são citadas no texto. Tenha cuidado com capturas de tela, elas podem ficar ilegíveis.
  • Procure utilizar a forma “sujeito + verbo + predicado” para construir suas frases. Isso torna o texto mais claro, encurta as sentenças e diminui a possibilidade de cometer erros de concordância. 
  • Escreva sentenças curtas.  Sentenças longas exigem o uso excessivo de vírgulas, dois pontos, pontos e virgulas, travessões e parênteses, além de tornar a leitura cansativa. Essa regra deve ser seguida duas vezes se escrever o artigo em inglês, pois o estilo da língua inglesa usa frases curtas. A maior reclamação de revisores de língua nativa inglesa sobre artigos escritos por brasileiros é quanto ao tamanho excessivo das frases.
  • Cada palavra deve traduzir exatamente o pensamento que se deseja transmitir. Isto é, não deve haver margem para interpretações. Evite utilizar linguagem muito rebuscada ou termos difíceis.
  • Prefira qualidade ao invés de quantidade. Geralmente uma conferência tem um limite máximo de páginas. Apesar de não ter limite de páginas, os editores de revistas preferem artigos inovadores e concisos.
  • Ao terminar de escrever um artigo, espere alguns dias antes de submetê-lo ao veículo selecionado (quando possível). Depois de alguns dias sem pensar no assunto uma revisão melhora muito.
  • Finalmente, se o artigo for aceito, tente aplicar todas as recomendações dos revisores, mesmo que você não concorde. Se algum revisor pedir para aplicar uma correção que você acha errada, comunique-se com o editor. Caso o artigo seja recusado, aproveite os comentários dos revisores  quando for reescrevê-lo para submeter a outra conferência ou revista.

Dicas para escrever artigos em inglês

Primeira e única dica: Não traduza diretamente um artigo em português para o inglês com Gloogle Tradutor! Apesar do algoritmo de tradução ter melhorado muito nos últimos anos, o Google Tradutor ainda comete muitos erros.

Qualquer tradutor automático comete erros de tradução nos seguintes casos:
  • Um tradutor automático não sabe corrigir erros de português. Se você escrever um erro de concordância, mesmo que pequeno, ou esquecer uma virgula ou ponto final, a frase traduzida vai ficar horrível. 
  • Um tradutor tem dificuldade na interpretação da sintaxe, por exemplo, enquanto em português escrevemos na ordem "substantivo-adjetivo", em inglês escrevemos "adjetivo-substantivo". Apesar dos tradutores acertarem na maioria das vezes, caso use mais de um adjetivo ou substantivo composto, ele pode se confundir escrevendo coisas esdruxulas. Quanto maior e mais complicada a frase, mais errada a tradução.
  • Um tradutor não consegue escolher a palavra conforme o contexto. Isso é grave no caso de palavras em que uma palavra em português tem duas traduções em inglês conforme o contexto, por exemplo, a palavra "porco" é traduzida para "pig" quando fala de animal vivo e "pork" quando fala de carne de porco alimento.
  • Um tradutor não consegue traduzir corretamente expressões coloquiais. Vejam esse exemplo:

Aí vão as dicas:
  1. Para escrever os trabalhos relacionados, é melhor fazer um resumo dos próprios artigos originais (se escritos em inglês). O resumo tende a ficar melhor redigido do que fazer um resumo em português e tentar traduzir para inglês. Na fundamentação teórica use livros textos em inglês. Para a escrita da proposta, avaliação e resultados, use como referência artigos semelhantes, você vai ver como existem muitas frases comuns.
  2. Escreva o texto na voz ativa e sempre no formato sujeito-verbo-predicado. Evite escrever sentenças compostas, prefira fazer várias frases, mais próximo do jeito de escrever da língua inglesa.
  3. Um bom site para fazer a tradução português-inglês é o Linguee. Na verdade não é um tradutor automático, mas um motor de busca que procura trechos de traduções feitas por humanos e você pode ver como um tradutor humano traduziu aquele trecho. 
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